Ponto de Vista
Velma
abaixou a cabeça, refletiu sobre aquelas palavras e disse-lhe:
- Você
pode estar certo, mais isto vai completamente contra tudo que me ensinaram e tudo
em que sempre acreditei. E minha fé? – Achas que podemos viver distantes da
crença em Pory, nosso Deus?
Percebendo
que as palavras de Gabriel estariam acima da compreensão de Velma, Isabele se
interpõe:
- Não é
nossa intenção vos confundir e por este motivo estamos relutantes em vos
auxiliar em causas mais significativas, como a cura de certas doenças. Melhor
deixar tudo como está e o o curso da história ser o responsável por vosso
crescimento.
Por
hora, não havia mais o que ser dito e dessa forma se recolheram, sem palavra
alguma ser pronunciada.
Tão
logo entraram em seu quarto, Isabele comenta com Gabriel que se diz arrependida
de ter levantado tais questionamentos, pois sentiu que havia tocado num ponto
extremamente delicado, que de algum modo magoou seus amigos.
- Eles
precisam refletir!
- E nós
não devemos nos meter. Acho que é chegada a hora de partirmos.
- Se
assim o fizermos, nossa proposta teria sido em vão. Além de não termos nenhuma
garantia de que possam falar sobre quem éramos e serem mal interpretados pelos
outros. – Não, não podemos partir Isabele. Não agora.
No dia
seguinte, em suas reuniões matutinas, agiram como se aquela conversa da noite
anterior não tivesse acontecido. Fraternais e bem dispostos, os irmãos se
apressavam para mais uma jornada. Velma a princípio passaria no jornal e depois
na casa da moeda, enquanto Alex resolveu tirar a manhã de folga, deixando para
passar no teatro lá pelo fim da tarde.
Tão
logo Velma se despediu, Alex convidou seus amigos para um banho de mar e
desfrutar um pouco das águas cristalinas de Yron. O casal aceitou o convite e
logo se colocaram em marcha dirigindo-se ao destino. Ao chegarem à praia,
sentaram-se na areia e ficaram por algum tempo contemplando aquele belo
horizonte, mas não tardou e todos correram para água, cada um mergulhando a sua
maneira, se iniciando uma pequena batalha onde as armas eram água e areia até
ficarem exaustos e voltarem para a beirada.
Alguns
minutos se passaram entre contemplação e pensamentos, até que Alex pergunta:
- O que
eu posso saber?
- Até
onde vai sua vontade e o que esperas de nós?
Alex
sabia que estava pisando em terreno acidentado, mas diferentemente de sua irmã,
possuía a mente mais aberta e sem pestanejar respondeu a Isabele:
-
Anseio por conhecimento e como tive a sorte de conhecê-los, espero muito de
vocês.
Isabele
pegou um pequeno pedaço de madeira que estava ao seu lado e começou a escrever
na areia:
Paciência
Critério
Compreensão
O
primeiro passo é a paciência. Entender que nada se dá repentinamente ou a
revelia. Em tudo existe um plano, uma correspondência.
Não nos
foi dada a sapiência integral, apenas a interação para fazer parte daquilo que
vivemos de acordo com o estágio em que nos encontramos. Estes estágios são
muito diversos e obviamente não cabem em uma única existência, portanto o
retorno à vida em seu planeta de origem acontece sucessivamente de acordo com o
aprendizado adquirido e as experiências acumuladas. Para não haver
interferência e confusão entre uma existência e outra, a cada vida
interpretamos como se fosse a primeira e tudo se dá como novo até que todos os
estágios se completem. Ao fim deste primeiro ciclo, estamos aptos a frequentar
o segundo, agora chamado de nível Dois, mas vivido em outro planeta de
similaridade ao primeiro com nuances diferentes, próprias aos seres daqueles
estágios para melhor procedimento as suas novas incumbências.
Isabele
fez uma pequena pausa propositadamente esperando por perguntas de Alex, que
percebendo esta brecha indagou:
-
Quantas vidas são necessárias para cada estágio e quantos estágios para
terminar um ciclo?
-
Quantas forem necessárias para cada estágio, assim como para o fechamento de
cada ciclo.
-
Então, voltarei para Yron, vivendo várias vidas diferentes aqui neste primeiro
ciclo?
Sim,
voltarás à Yron por diversas vezes, entretanto, eu não lhe disse que aqui é o
primeiro ciclo!
Então,
este é o segundo? – Em que ciclo vocês estão?
- Sim,
este é o segundo, mas já passou por período em que recebeu seres do primeiro.
Assim como estamos no terceiro, porém já recebemos seres do segundo e
pregressamente do primeiro.
- E
como vocês sabem exatamente esta divisão de “níveis”, ou seja, como sabem que
são do terceiro, eu do segundo e quem eram os do primeiro?
-
Descobrimos que somos do terceiro, quando chegamos a Yron e lhes encontramos
vivendo fases que nossos ancestrais já viveram na Terra, assim como temos
ciência de como viviam os ancestrais de nossos ancestrais. Portanto, seus
ancestrais eram os primeiros. Concluímos então, que isto se dá em vários
planetas similares aos nossos e que são relativamente próprios aos nossos ciclos
evolutivos, não nos cabendo ciência dos ciclos imediatamente superiores.
O
segundo é o critério, que sem estudo e disciplina não pode ser alcançado.
De
acordo com o acúmulo dessas vivencias, a cada vida refinamos e administramos
melhor nossos critérios. Percebemos que os estudos nos conduzem a disciplina e
que desta forma atingimos mais rapidamente nossos objetivos tanto pessoais como
coletivos. À medida que os homens avançam, os critérios são alocados não só
moralmente, como cientificamente e se coadunam com as respostas procuradas, mas
dependem da comunhão e integração dessa coletividade. Isto se dá muito
lentamente por acontecer exatamente no segundo ciclo, estágio em que Yron se
encontra agora. Um estágio basicamente religioso, onde tudo se concentra numa
vontade superior, que por falta de conhecimentos, se consagra divino e
maravilhoso, fazendo com que as pessoas entreguem o sequenciar de suas vidas aos
desígnios de divindades, muitas vezes criadas por elas mesmas.
- Quer
dizer que nós mesmos somos criadores de Deuses imaginários?
- O
desconhecimento da nossa própria natureza muitas vezes nos leva a crer que
somos fruto de uma criação mágica, porém tudo se deve a um plano elaborado
muito além da compreensão e capacidade que nos foi dada, que talvez só consigamos
entender quando estivermos em níveis bem acima do que agora nos encontramos.
Por fim
a compreensão, que só acontece precedida das duas primeiras.
Ao
compreendermos pelo menos uma parte da magnitude do tempo e espaço, começamos a
intuir de forma mais abrangente a relação de nossas existências nesse espaço
temporal. Orgulho, egoísmo e sentimentos como preguiça e desânimo, medos e
receios deixam de nos acompanhar, nos tornando mais ativos e capazes, onde a
entrega e aceitação desta compreensão, passam a ser integrantes de nossas
existências.
- Como
podemos compreender a magnitude do espaço temporal?
-Algumas
gerações aqui em Yron ainda passarão, para que esta compreensão se dê como
forma iniciativa no planeta e outras tantas para que estudos complementares
atinjam alguns objetivos, mas a compreensão total deve pertencer apenas aos
níveis próximos dos mais elevados.
Faça a
si mesmo perguntas que sugiram medidas e distâncias então, podereis verificar o
quão distantes estais de respostas conclusivas.
Em tudo
há seu próprio tempo.
Com
fome, resolveram voltar para casa e fazer um lanche. No caminho de volta, Alex
agradeceu a Isabele pelas explicações e rindo, lhe pediu “paciência” para com
ele e sua total ignorância diante a conversa que tiveram.


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